
13h32.Estação Sumaré. Diante de mim uma menina com a sobrancelha exageradamente feita usa um sobretudo gema... Fecho os olhos. Cansaço. Festival exitoso, bom. Cuba. Vem a meu pensar a janelinha do msn. Coloco, por motivo estranho, o nome de Lucas nela, porque algo fez-me lembrar dos anjos sem pé de Lucas. Lúcifer chora inconsolável. Cai... Estagna num pé só e chora mais. Uma peça de xadrez manhosa. Deus ri, e eu nunca tinha sido avisada desse sarcasmo celestial. Mas há outro Lucas. A menina de amarelo usa um All Star de cores sóbrias. Não entendo por que eu não comprei um daqueles e agora fico obrigada a escolher situações para usar o meu... Preto e escandaloso com seu brilho a quilômetros. O metrô ainda se move. Lucas. Lucas é o sobrinhho que Mário buscará . Não o conheço, mas vejo-o correndo e gritando pelo tio, sorri, pula, brinca. Criança feliz, amada. A menina está me olhando. Talvez eu tenha roncado. O metrô não vai parar mais. Disparou e pegou um túnel errado. Estamos presos, condenados a seguir em frente, e esse em frente nem existe, porque nunca acaba. A menina me olha. Pára de me olhar, criatura chata! Se você pelo menos não se parecesse a uma personagem de Cortázar... Mas com esse cachecol de listras não sei se você é uma de suas lagartas insistentes ou uma personagem que sobre a ponte muda de personalidade. Não me olha, eu nem sei que você existe, só te vi. Esse metrô está seguindo por um trilho paralelo ao mundo, está mais rápido que o normal. As pessoas estão paradas, hipnotizadas, para não serem obrigadas a compartilhar de meu pânico. Não me parece justo que certas pessoas padeçamos de excesso de consciência enquanto outras vivam em dormência constante sem sequer notar que um mísero metrô nunca mais parará. Não vai parar...
Fecho os olhos. Preciso dormir. Não posso ficar acordada pela eternidade se estou condenada a viver num vagão de metrô para sempre...e sempre... e sempre.
Estação Vila Madalena. 13hh34. Eles não sabem, mas passaram-se três horas.
Fecho os olhos. Preciso dormir. Não posso ficar acordada pela eternidade se estou condenada a viver num vagão de metrô para sempre...e sempre... e sempre.
Estação Vila Madalena. 13hh34. Eles não sabem, mas passaram-se três horas.
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