A cozinha é a parte da casa onde eu passaria minha vida sem pestanejar. Cresci nela.
Encontrei nela felicidade gratuita e cura para a tristeza. Esta última claro que se reflete claramente em minha forma física, mas o amor pela cozinha não deixa isso ser um problema...
Claro que a maioria das pessoas conhece o poder da cozinha pelas mãos da própria mãe, e no meu caso não seria diferente, mas o que regia maravilhosamente as mãos de dona Marie, minha encantadora e enérgica progenitora, na minha história pessoal nascera nas mãos de outra Vera, minha bisavó por parte de avô materno. Em matéria de Vera somos três, ela, minha mãe na pia batismal e eu também em registro oficial... Vai que reside aí o encanto... na fé do nome...
Minha mãe pisou cedo na cozinha, quase à força, um dia em que após encantar a todos com sua capacidade culinária, minha bisavó, que ajudava nas tarefas domésticas, simplesmente se esqueceu de como se fazia para cozinhar, e a idade que afeta a clareza das idéias, interferiu também na coerência da comida.
As lembranças infantis de uma pessoa não coincidem com as histórias que escuta, e meus “recuerdos” de panela remontam a uma época que regida por tristeza, acabou sendo uma das mais felizes de minha vida. Com a separação de meus pais, eu em tenra idade, fui levada a morar com meus avós maternos e a ser exposta a uma cozinha que eu também usava para os fins mais variados... Alguém deve se lembrar de que eu achava justo alimentar as tartarugas que a tia Anita me deu com minhocas, em cima da mesa da cozinha... Minha primeira experiência como mestre-cuca... :p Dessa época eu me lembro das primeiras aulas práticas de cozinha. Havia quatro cheiros que me enlouqueciam e eu aprendi seus nomes: manteiga, farinha de rosca, banha de porco e torresminho. Naquela época as pessoas ainda não se preocupavam com o colesterol e viviam mais, nunca entendi esse paradoxo... A manteiga e a farinha de rosca davam sabor a legumes cozidos, que vez ou outra recebiam uma chuvinha brilhante de torresminhos crocantes – que fique claro que os torresminhos ficavam em um lugar bem alto para eu não poder roubar! Assim como os doces de festa sobre o armário do quarto do meio. A banha de porco fritava todo o resto e, obviamente, dava um sabor fantástico à comida.
Foi nesse período também que eu aprendi na prática que se queremos dar uma festa maravilhosa, a dona da casa deve ser uma anfitriã de verdade e ficar três dias na cozinha e no dia da festa fazer ouvidos moucos para todos os elogios que recebe depois. Não importa se a festa é para 10 ou para 100, não se comprava comida fora. Essa era a Baba Gabi, que hoje já não tem olhos que lhe permitam ver o fogão, mas tem a experiência que a faz reger nossas mãos sobre as panelas. Apesar de meu avô não colocar muito a mão na cozinha, colocava a voz e dava pitaco até não mais poder, era ele que punha pimenta na comida!
Do outro lado, estavam algumas receitas diferentes que minha mãe trouxera para a casa, porque meu pai também tinha voz na cozinha. Ele queria comer o que provara pelas mãos da vó Carol- minha avó, mãe dele. Essa cozinha não me deixou muitas lembranças, exceto a rabanada, que aprendi a fazer antes de meus 9 anos e nunca mais esqueci, mas que hoje não me atrevo a fazer porque minha amiga Carina faz muito melhor que eu, e se bobear, compete em pé de igualdade com a vó Carol! O que ficou da avó Carol talvez tenha sido meu paladar italiano. Quando eu fazia porpeta e macarronada minha mãe me olhava espantada, dizia que era igual à da vó!Ela dizia que eu tinha a postura de minha avó na cozinha... Fazia bagunça igual também, rs Eu fui descobrir depois dos 26 que era fato o que diziam sobre minha semelhança com essa avó: até nos gatos nossa paixão é a mesma, fisicamente, nem te conto!
Minha mãe guardava receita de tudo e cozinhava de tudo. Quando se casou novamente, parecia que tinha virado minha Baba Gabi: festas e festas com comida feita
Por mais que eu cave na memória, minhas lembranças correm em volta da cozinha e do jardim. Tudo de belo que me cerca nas lembranças envolve bicho, planta e comida.
Hoje eu tento reproduzir para minha filha e criar para ela memórias semelhantes, e mesmo sendo meio triste às vezes, é na cozinha que mato meus problemas e vivencio o luto mais doloroso de minha vida.
O destino prega peças, e quis que meu por um tempo escolhesse por companheiro um chef, que é para eu nunca mais sair de perto de um fogão. Agora está me ajudando a achar novos rumos para minha vida e conduzindo-me a cursos e mais cursos maravilhosos. E apesar de já ter feito vários deles, o que marcou de verdade foi o de chocolates de Simone Izumi. Fez-me voltar àqueles dias lindos de alegria inocente aos 13 anos de idade em que eu vigiava alucinada as forminhas de chocolate maternais que fariam a beleza da mesa de Páscoa. E fez voltar o cheiro de condimentos e especiarias que aromatizava as mãos de minha mãe.
Na infância perdi meu pai, no princípio da adolescência a vó Carol e mais recentemente, quando estava aprendendo as delícias de ser avó, minha mãe também foi silenciada na

terra. Ela não teve tempo de ser a avó que eu tive, mas deixou-me todos os instrumentos para eu ensinar os caminhos para minha filha. O curso de chocolates a trouxe de volta a meus ouvidos mais tagarela do que nunca e, apesar de eu nunca mais poder ter o cheiro de suas mãos segurando meu rosto para consolar-me, agora tenho sua voz no fogão e na nova identidade de meu blog. Eu renasci nos sonhos que eram dela e o Cocina de Bruja acaba de ter sua identidade definida. Quem quiser saber, vai ter que acompanhar.
Mãe, te amo... ainda não achei um chocolate que faça passar essa saudade, mas essa é minha nova missão. Inha.
9 comentários:
Vera, você escreve muito bem! Fiquei encantada e morta de vontade de experimentar alguma receita tua! haha
Vou acompanhar teu blog :) a-do-rei!
Beijão da sua companheira de viagem hahaha
Ganhei o dia com o elogio à minha rabanada!!! rs :-)
Vera, vc quer acabar comigo?
Buuuuaaahnnnnn....lindo, lindo, lindo!! Obrigada!:D
Um abraço apertado no seu coração, linda e todo sucesso no mundo!
Si
Vera, além de escrever muito bem, vc me emocionou, por que também não tenho minha mãe viva há muitos anos (ela viajou quando eu tinha 4 anos), mas vc tem a bênção que é às lembranças da companhia de sua mãe na cozinha. Parabéns pelo blog, já sou sua seguidora, quem sabe aprendo a cozinhar. hehe!!! Beijos pra vc e sua princesinha!
Vera, devo dizer que este é o primeiro blog da internet com cheiro. Lamento não o ter cheirado antes. Mas não deixarei de sorver um pouco desse aroma toda semana.
Até.
Vera sua bruja mais linda e doce,
o cheiro das cozinhas e jardins por onde vc passou chegou por aqui e o seu post me levou às lágrimas.
Que lembranças lindas você tem pra reproduzir pra sua filha.
Beijo com um nó na garganta.
Vera,é linda sua história!
E parabéns pelo sucesso!
Abraços
Patrícia
Vera........é linda sua história!
Parabéns e Sucessos!!!
Patrícia
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